Aos poucos vou me acertando
De rabisco em rabisco, errando o traço
Entre linhas tortas, me traço
Conheço-me melhor a cada risco
Apago-me, desenho-me, coloro-me
Refaço linhas
Recrio o novo
Me retrato pouco a pouco
No espelho de papel
A caneta percorre minha face
Há risco
Um erro sem volta
Acerto o traço
Aceito minhas linhas
Arrisco
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Balas e mais balas
Eu confesso, eu confesso, eu mordo a bala antes de chegar ao
fim. Eu juro que tento resistir, mas não resisto. Força do hábito.
Uma busca rápida pelo êxtase, um relance de ansiedade ou só
falta de paciência para esperar que ela acabe. Independente do motivo, sigo
minha vida mordendo balas e mais balas.
Seria eu, antecipando sempre o final de tudo, por puro medo
de não ter controle sobre o fim?
E nesse eterno clichê de intensidade vs duração, acabo
sempre optando pelo intenso. É rápido, deixa fortes marcas quando acaba, mas
pelo menos traz aquela sensação de “valeu a pena”. Um orgasmático fim.
No fundo, somos seres que procuram por orgasmos cotidianos. Não
estou apelando pra sexualidade da coisa, refiro-me a efervescência de
sentimentos. O ponto máximo de intensidade e excitação de espirito com a
felicidade em pequenas coisas.
Então vai, morda as balas, não tenha medo, eu te prometo que
valerá a pena.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Metáforas
Antes de levar isso adiante, quero que saiba uma coisa:
sou uma garota de metáforas. E não estou me referindo a simples abstrações, refiro-me à minha vida inteira. Sou metáfora por dentro e por fora.
Do lado de dentro, todos os meus enigmas e sentimentos controversos que não fazem o menor sentido para o mundo. Por fora, meu sorriso, meu olhar, pequenos gestos e claro, não poderia deixar de fora as minhas tatuagens. Cada tatuagem minha conta um pouco do
que sou. Frases por todo o canto
tornam-me um grande livro a ser lido, e cuidado, os detalhes são essenciais. De Fernando Pessoa a Caio Fernando Abreu, quero saber se está realmente pronto para entrar
nesse barco comigo e re-amar quando for preciso. Quer um conselho? Comece pela
minha bússola do pulso. Ela não mostra o caminho, mas bem, dá um certa
segurança para não se perder por aí. Vai, me dê a mão. Navegue pelo meu
corpo e não se espante quando chegar em meus ombros, há um grande símbolo de
liberdade por lá. Quando mais nova, fiz para me recordar com carinho de uma
importante fase da minha vida, mas acabou tornando-se o meu maior símbolo de
amor próprio. Meu pássaros te dirão “ei, ela sabe voar sozinha, e não haverá nada
que prenderá os pés dela no chão!”, mas não se assuste. Estarão apenas fazendo
a função que os dei, e olha que já espantaram muitos. Não eles em si, mas minha
fome pela constante liberdade.
Consciente disso, leia a bula na minha nuca e atente-se aos
efeitos colaterais. Se ainda não fugiu, uau, você definitivamente é diferente. Talvez
consiga arrancar da minha boca uma frase que não encontrará em parte alguma do
meu corpo, algo relacionado com amor. Definitivamente não encontrará essas
palavras facilmente por aí, tenho medo de me marcar com coisas que machucam ou
que simplesmente podem sumir da noite pro dia.
Em todas as minhas linhas grito que sou uma garota forte e
que sempre sabe o que está fazendo, quando no fundo sou apenas um dicionário sem significados: um amontoado de palavras
sem sentido algum. Mas se você tiver paciência, com calma, vem juntando minhas palavras,
chegue de mansinho, percorra cada parte do meu corpo até que, por fim, conseguirá
me ler por inteira.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Na próxima vez, apague as luzes
Você é tão... “sei lá”. Sim, “sei lá” é a definição perfeita. Cheguei a conclusão de que nunca consigo escrever sobre você. Nunca sai meia palavra que faça sentido,
assim como tudo isso que sinto.
Você esqueceu a luz acesa quando saiu. Você acendeu-a e
simplesmente se foi. Levou consigo a chave e me deixou aqui: trancada
eternamente no passado. Malditas luzes que não me deixam dormir, malditas luzes
que sempre me dão esperanças de que um dia você virá, nem que seja para apagá-las.
Na próxima vez que sair, faça um escândalo, quebre tudo,
faça-me te odiar. Mas por favor, nunca saia dizendo um “a gente se vê” se não for retornar para pegar as palavras que você
deixou cair. Nunca saia dizendo “se
cuida”, sabendo que no fundo preciso de você aqui para não surtar. Nunca saia
deixando seu cheiro na casa, se você não faz ideia do quão perturbador é
senti-lo todas as noites enquanto imploro aos céus para não sonhar com você
novamente.
A última vez que te vi, você estava na contramão. Ou talvez
você estivesse no caminho certo e eu fosse a errada da história. Enfim, te vi
abraçado com ela. E aquilo doeu de uma forma estranha. Sua felicidade é a minha
felicidade da forma mais torturante possível. Sempre torci para você estar com quem
quisesse, no entanto implorando que fosse comigo, por mais que eu tivesse
certeza do quanto isso é matematicamente impossível.
Meu ônibus seguiu em frente, mas eu não, e o último segundo
que te vi foi o segundo mais longo de toda a minha vida. Passou por minha
cabeça todas as coisas que eu poderia ter dito, todas as vezes que tive chance de
abrir o jogo, de mudar toda a história... E então te perdi de vista. Para
sempre.
sábado, 18 de julho de 2015
Tempo é dinheiro
Ô doutor, coloca anúncio no jornal anunciando o melhor trabalho do mundo. Quem não sonha em trabalhar nesse paraíso? Não falei que anunciar daria certo? Olha o tamanho dessa fila, doutor!
Ta vendo aquela negra ali? Fala que ela leu errado, tem entrevista nenhuma aqui não. Aposto que roubaria ate minha caneta se essa neguinha entrasse no escritório. O loirinho? Pode entrar, claro. É jovem,bonito e forte? Então está contratado! Nunca se sabe quando esses quesitos serão úteis.
Por que esse jumento não começou a trabalhar ainda? Tá achando muito trabalhar 16 horas por dia acredita? Bota esse vagabundo pra trabalhar em casa, faz nada aqui mesmo! O que ele teria mais importante pra fazer nas 8 horas do dia que ele não esta aqui? Nada é mais importante que a economia. Não trabalham e depois reclamam do preço do tomate. Não trabalham para ganhar seus 10 centavos por hora e ficam aí choramingando com vizinho no supermercado. Tempo é dinheiro, vejam só! Uma balinha por hora não é demais? Bom que com bala na boca não temos que servir almoço. Aquela sopa de água realmente estava nos saindo muito caro.
Como assim ele só trabalha 16 horas? Já passou da hora de passar isso pra 20! Ih patrão, só restaram 4 horas pro bicho dormir. Coloca ele pra dormir aqui que é melhor pro coitado, vai poder descansar um bocado. Pensando bem, dormir pra que? Já que ele está aqui coloca esse mula pra trabalhar. Esse povo de hoje em dia é tudo folgado, não pode ver tempinho livre que montam na gente. Acham que a gente é burro. Por isso que o país esta desse jeito, povo preguiçoso. Tempo é dinheiro.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Dias cinzas
Por que só está chovendo em mim? Minhas lágrimas perdem-se
na tempestade cotidiana. Malditos dias cinzas! Isso deveria doer tanto assim?
Sinto saudades da luz do sol, anda tudo tão frio aqui
dentro. Por que todos riem de mim? Minha desgraça é tão desajeitada assim? Quero
caminhar junto a eles. Quero enxergar as cores que tanto comentam. Por que não
vejo?
Entre uma tempestade e outra, dá para ver um pedaço do céu
azul. Ele é tão lindo! Logo o tempo se fecha novamente. É insano.
Tudo está tão bem... Até que troveja. Logo depois vem um
raio. Um pingo de chuva, outro, e outro... Até que uma hora, o céu desmorona
sobre mim.
Afogo todo santo dia nas mesmas águas. Sou levada por
pesadas correntezas para lugares que não quero ver. Não consigo me mover. É
como se eu tivesse esquecido como se nada, ou talvez apenas desistido de remar.
Tá doendo muito. Está voltando tudo. Estou sangrando sentimentos que não sei
descrever. Nem sabia que era capaz de sentir isso.
Não quero sair de debaixo das cobertas, por favor, me deixe
aqui. Um dia o despertador tocará e serei obrigada a ir perambulando no modo
automático para fazer algo que não estou com a mínima vontade. Enquanto isso,
me deixe aqui, por favor. Um dia tudo
isso passará, eu prometo, eu espero, mas enquanto isso me deixe aqui.
É como se eu cultivasse isso aqui dentro. Como se cuidasse
desse terrível monstro apenas porque a companhia dele diminui a minha solidão.
E vamos confessar que não é a melhor das companhias, mas sei lá, acho que é
questão de aceitação. Já o aceitei do meu lado. Às vezes ele me abandona, como
qualquer ser normal e em sã consciência que viva do meu lado, mas diferente de
todos, ele volta. Volta para preencher a saudade que sinto de quanto as coisas
não eram tão vazias aqui dentro. De quando eu ainda via a luz no fim do túnel.
Acho que deixei o meu futuro no passado. Simplesmente esqueci-o para trás.
Quando olho para o futuro, vejo meu presente. Minha vida é
um eterno replay de clichês e esperanças. Sonhos que não passam de histórias
que me conto antes de dormir para não ter pesadelos. Mas o que fazer quando até
seus mais coloridos sonhos andam perdendo as cores?
Deixo que a caneta leve minhas mãos, e sai tudo isso:
vômitos repletos de restos de palavras que ficam amontoadas no estômago,
causando enjoos e reviravoltas mais a cada dia. O próximo estágio dessa doença
é o coração. Ouvi dizer que as palavras ditas e não ditas amontoam-se na
biblioteca de pretéritos imperfeitos. Lá ficam até serem descobertas ou irem
para o lixo. A fase terminal de todo esse mal se encontra no peito. As palavras
vão se acumulando pouco a pouco no meu pulmão, dificultando minha respiração
mais a cada dia. Já posso senti-las pesar.
Meu remédio? A água salgada que percorre todo meu rosto até
me esvaziar por completa. O efeito colateral? A dor.
sábado, 27 de junho de 2015
O inimigo
Perdi a fé naquele dia cinza em que o primeiro canhão explodiu. Era madrugada, levantei assustada, e quando olhei para o lado tudo já havia se desmoronado. Tarde demais, sou apenas mais um soldado perdido em campo de batalha, segurando a prova do crime que cometo contra mim mesmo. As frias balas atravessam-me o peito, mas nada acontece. Ainda não fui derrotada. Ainda.
Temo que esse seja meu último sussurro. Uma dor efêmera que possui o amargo gosto da derrota, com pegajosos sofrimentos que escorrem-me pela boca.
É o fim, agora eu sinto. Mas não me rendo. Queimei minha bandeira branca em tempos difíceis, nos quais precisava das chamas para sobreviver.
Lutei uma eternidade contra um inimigo que sempre habitou meu espelho. Seus pontos fracos não passam de singelas gotas de papel. Travei uma batalha a punho contra mim mesma. Meu campo de batalha pulsa sangue, minha trincheira não passa de um amontoados de panos largados na cama. Ele está aqui dentro, guerreando entre minhas veias, dores, pulsações. Sou o inimigo.
Guerreando contra meu próprio caos, desfaleço descalça. Quem virá buscar meus sapatos? Minhas gastas solas não servem para meio passo.
terça-feira, 9 de junho de 2015
Metamorfose
Faz muito tempo que não me vejo em meus textos, mas afinal, como me encontrarei neles se nem sei como sou? Chame isso do que quiser, entre elas crise existencial será aceito, mas te digo com toda certeza do mundo que é mais que isso. É sobre eu ser assim. Não é fase, não é questão de tempo, não é angústia. Só sou assim: sem definição. Sou cara e coroa, flor e espinho, sol e lua. Tudo ao mesmo tempo. Sou oposto. Totalmente contrária. Do avesso. Vai ver é só isso.
Feita de metamorfoses, vivo em meu casulo eternamente. Seria eu uma lagarta esperando por asas? Não, é mais que isso. Não sou lagarta nem borboleta, sou a mudança. Sou a metamorfose em si.
Nem sou tão complicada assim vai... Tá, talvez um pouco. Não sei lidar comigo mesma e acredito que esse seja o maior dos meus problemas.
Sinto como se todos os meus textos fossem escritos com as mesmas palavras. E são. Em ordens diferentes, mas são. Sou frase indefinida. Sempre as mesmas palavras, formando sentenças diferentes, tendo sentidos diferentes, gritando algo diferente para o mundo. Seria isso uma definição? Espero que não. Amanhã tudo isso mudará, seja meu conceito sobre mim ou sobre mundo. Todo esse texto já terá sido realinhado das mais diversas formas. E eu continuarei aqui, entre cada linha, espiando o mundo na esperança de me entender. Me descomplicar é o primeiro, e maior, passo para descomplicar o mundo.






