quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Apenas um jogo


É apenas um jogo, você não vê? Te conheço, sei que você é inocente até onde quer, e que não é vingativa até onde te agrada. Mas ele também sabe manipular, e sem perceber, você entrou no jogo dele. Era isso que ele queria desde o começo. Você pensou mesmo que estava por cima? Realmente acreditou que tinha ele em suas mãos? Pensei que você só se fazia de idiota até onde te convinha. Vai continuar mesmo nessa? Você merece tão mais.
Precisarei te sacudir até você enxergar o tamanho do papel de trouxa que você está assinando? Vamos combinar, você é bem mais que isso.
Não vale a pena se sujar tanto por um joguinho tão momentâneo. Ou você acredita mesmo que isso vai durar? Te contar uma coisa: máscaras caem vezes ou outras. E você está colocando tudo a perder por um relance que logo passará. Não troque o certo pelo duvidoso. Abre esses olhos garota, você é muito mais do que qualquer homem pode ver. E eu te vejo por trás de toda essa dúvida, toda essa confusão. Tudo está parecendo embaçado agora, mas basta você se afastar que enxergará o óbvio: você está sendo uma garotinha iludida por um estranho que te promete doces. Abra esses olhos. Fuja enquanto é tempo.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Eu, paradoxo


Perdida dentro e fora de mim. Andando em círculos para lugar algum. Correndo para não chegar ao final. Perdendo-me para encontrar. Bebendo solidão para sentir sede de saudade. Entornando até a última gota de passado para, em uma tentativa inútil, clarear o agora. Nada. Escuridão que dói, silêncio que fere. Após um bom tempo, percebi que meu lugar é em lugar nenhum. Não pertenço a nada, não me encaixo entre peça alguma. Estaria eu no quebra-cabeça errado?


domingo, 22 de novembro de 2015

Enlouquecendo

Nunca estive tão perto da loucura. Os nós na garganta arrebentam enquanto rasgo meu peito na esperança de conseguir reviver meu coração. Sentada no chão do banheiro enquanto a água escorre, pessoas me rodeiam. Pessoas que nunca vi na vida. Observam-me enquanto apontam seus finos dedos. “Vejam só, outra perdida no mundo”. De relance, me vejo na sacada de um prédio. Me embebedando e me perdendo na fumaça enquanto o mar cinza e os prédios sem cor tentam me dizer algo que não consigo compreender. Estou sozinha, completamente sozinha. No meu peito, um enorme buraco. Vivo em uma eterna busca por pessoas que o preencham, mas nada se encaixa. A noite acaba. Fecho os olhos e me imagino caindo, sentindo em segundos o que deveria ter sentido durante toda a minha vida: me sentir completa. O baque ao chegar no chão me acorda. Uma taça de vinho despenca do 12º andar. Apenas mais um surto. Virou rotina. Com o tempo aprendi que preciso ouvir meus fantasmas de tempos em tempos, eles só querem um pouco de atenção. Além de dar uma bronca nessa garota do espelho, claro. 
A caixinha de lembranças do armário nunca me soou tão distante. Enormes muralhas me separam de tudo aquilo, e por mais que eu grite ou tente quebra-la, ela permanece intacta. Não me lembro de quando ou como, mas sei que fui eu mesma que a construí. Acho que tinha a ver com um tal de “seguir em frente”. Mas sem querer, acabei construindo uma outra muralha na minha frente, por mera proteção de um imprevisível monstro chamado futuro. Acabou que a minha maior esperança tornou-se o meu maior medo. “Nada vai dar certo. Cresça garota, você não tem mais cinco anos para acreditar em castelos e princesas. A vida sempre foi e sempre será essa coisa sem sentido algum que consumirá cada centímetro de você enquanto ainda puder ficar de pé. E quando cair? A vida só vai te dizer o quanto você foi fraca nesse jogo” – Uma voz sussurra no meu ouvido. A minha voz. Não sei o que deu errado no caminho, mas bem, agora estou presa. Preso no meio de tudo isso, junto com meus fantasmas e quaisquer outros sentimentos que materializei por mera companhia. A água do banheiro continua escorrendo pelo ralo, mas permaneço imóvel. Não consigo me levantar, não consigo abrir os olhos, não consigo pensar em nada que envolva os próximos segundos que antecedem a tudo isso. Minha ampulheta encontra-se cada dia mais perto do último grão.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Labirinto

Entrei nesse labirinto faz tempo. Engraçado que antes era apenas uma estrada qualquer, eu não encontrava a saída, mas afinal, para que encontrar uma saída se é uma estrada que obviamente está me levando para algum lugar? Nunca me dei conta de todas as voltas que dei sem sair do lugar. Até que um dia eu acordei. Olhei ao redor e percebi que era a milésima primeira vez que passava por aquela esquina. De repente tudo ficou tão claro, e ao mesmo tempo tão confuso em minha cabeça.  “Ai meu Deus, estive em um labirinto todo esse tempo!”.
Pior que uma pessoa perdida, apenas aquela que não sabe que está perdida. É a pior espécie de confusão. Um dia sua vida está ok, e na outra “bam”, tudo muda de lugar. Você é a culpada da mudança, no entanto você não tinha escolha. Saber da existência do labirinto tira a opção de seguir em frente, já que você chega a conclusão de que essa opção nunca existiu. Voltar atrás? Seria continuar andando em círculos. E vamos confessar que já estava ficando meio tonta depois de tantas voltas.
A saída está logo ali, eu posso sentir. Mas a questão é: eu realmente quero sair desse labirinto? Ou adoro a sua incerteza e esperança de encontrar algo a cada esquina que viro?  No fundo eu gosto de ficar aqui. E mais no fundo ainda, acredito que aqui é o meu lugar. Mas isso não posso confessar nem para os meus mais ocultos sentimentos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Incessante vazio


No reflexo dos meus olhos vejo uma estranha. Não faço ideia de quem sou, o que quero ou quem. Fecho os olhos e vejo um vazio tão profundo que me afoguei no nada. É assustador.
Não quero nenhuma pessoa por perto, inclusive eu. Tentei conversar comigo mesma e desisti. Sou tão confusa que passo longe de me entender. 
Quando minha mãe me dizia que eu não deveria conversar com estranhos, eu estava no meio? O vazio ultrapassou as barreiras do meu corpo e invadiu minha vida por completo. Só queria que isso acabasse. Queria fechar os olhos e enxergar algo além do eterno branco que me persegue. 
Tentei chorar e não saiu uma lágrima sequer. A angústia me consumiu,juntamente com a culpa por ser eu. Meu coração dispara em câmera lenta. Tornei-me pedra. Meu coração congelou. Minha alma me abandonou. Minha razão fugiu. Só restou-me a dor. A dor de não sentir um pingo de felicidade percorrendo minhas artérias. 
Meu vocabulário esgotou-se junto com a minha sanidade. Sou peixe querendo se afogar. Trem fora do trilho. Borboleta que não sabe voar.
Pobre borboleta, presa em seu casulo. O casulo que ela mesma construiu. Escutando o mundo acontecendo lá fora sem conseguir sair dali,muito menos ver algo além da escuridão que a envolve. Ouvi dizer que ela tem medo do escuro. Suas inúteis asas morrerão sem terem sentido. 
Minha cabeça doí, meu corpo estremece. Desmorono como minha vida. Prédios sem base desabam e castelos de areia sempre são levados pela água. Não dá pra lutar com a gravidade da vida, não há conserto para o que foi feito para cair. Não passo de tijolo sob tijolo. Nada que sustente. Um sopro e já era, não restará pedra sob pedra.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Caso perdido

Apenas mais um caso perdido? Sim, posso até ser. Sou apenas mais uma perdida nesse mundo mesmo. Caso irreparável, daqueles sem solução. E sabe qual é a melhor parte de “ser perdida”? Essa é a minha chance de aproveitar cada estrada que surgir na minha frente. Não me importa o destino final, quero apenas curtir o caminho.
Ando vivendo um pouco de tudo, fazendo coisas que sempre sonhei e outras que nunca me imaginei fazendo. Coisas que amo e coisas que odeio. Me descobrindo pouco a pouco, e não me arrependo nem um pouco.
É garoto,eu realmente não tenho solução. Mas quem disse que quero uma? Qualquer dia me encontro por aí. Por enquanto ainda estou procurando, e ouvi dizer que a melhor parte é justamente a procura, pois é quando nos abrimos para as oportunidades da vida, sem receios e preocupações.
Sempre fui apontada como a errada, a problemática, a louca... Com o tempo fui acreditando. E assim aprendi a me julgar mais que qualquer outra pessoa. Virei especialista nisso, tenho que admitir. Me amar? Nossa, que absurdo! Logo eu, essa garota tão confusa e sem sentido. A estranha que não se encaixa em lugar nenhum.
Passei uma vida inteira escutando que eu não cabia em nenhum quebra cabeça, e só hoje me perguntei se eu realmente quero caber.  Pela primeira vez eu me vi além de todos os defeitos que coloquei na minha frente. E foi aí que me vi de verdade. A garota que ainda não faz a menor ideia de quem é, mas que se orgulha de cada passo que já deu, de cada besteira que já vez, e de cada partezinha de si.
Quer saber de uma coisa? Não tenho conserto mesmo... Ainda bem!


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Uma madrugada qualquer


Toda madrugada é a mesma coisa. A saudade aperta. A vontade de falar o que não devo vem à tona. O peito pesa. Os olhos inundam.
A loucura esmurra minha porta, finjo que não estou. Trinta anos nas costas e tudo ainda continua a mesma coisa. Eu realmente acreditava que tudo iria melhorar. 
Entrei nessa corrida guiada pela esperança, e ainda estou aguardando o prêmio final. Isso poderia ter acabado anos atrás, em outra madrugada qualquer, no entanto eu insisti. Por medo. Por esperança. Por covardia.
No parapeito da janela, tudo é tão mais lindo. Ver que o mundo gira sem você, que as pessoas continuam passando desesperadas de um lado para o outro, para fazer suas coisas que pedem pressa. E ninguém olha para cima. Ninguém lê meu pedido de socorro.
Quinze anos se passam e a mesma cena se repete. No entanto agora já cheguei ao fim desse livro, e descobri que a mocinha morre no final. Bem clichê.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Últimas palavras


Decisiva, fatal, imutável, definitiva. A pior última vez sem dúvidas é aquela que vem sem aviso prévio. Nada de preparações, despedidas, últimas palavras. Seja o último beijo, o último abraço, a última conversa, ou até mesmo o último adeus. Naquele momento não havia plaquinhas dizendo “aproveite isso agora pois não irá se repetir”, e mesmo se tivesse, talvez não fosse de tamanha utilidade. Talvez é assim porque simplesmente é melhor assim.
Não sei você, mas eu honestamente não gostaria de saber o dia da minha morte, por exemplo. Cada segundo se tornaria insuportável, e a angústia da espera certamente me mataria antes. Saber que aquele tchau desengonçado e frio foi a última vez que viu alguém também pode não ser uma das melhores coisas...
A verdade é que todo mundo sempre tem aquelas palavras que ficaram presas na garganta, aqueles lindos discursos que gostariam de ter falado, ou até mesmo um simples “eu te amo”. Mas vai por mim, seria muito mais doloroso. Saber que aquele momento é o último, seja do que for, não nos deixaria aproveitá-lo como ele merece. Ele merece ser mais um momento normal, com todas as suas finitudes e infinitudes possíveis, sem lágrimas, sem apertos, sem saudade antecipada.
A vida é assim, uma eterna caminhada no escuro. O que podemos fazer? Aceitar o fato e aproveitar o máximo possível de cada segundo.
Diga tudo o que tem para dizer. Guardar palavras para quê? Palavras esquecidas na garganta só servem para se acumularem e virarem nós.
Então vai em frente, diga ao vizinho que o novo corte de cabelo dele ficou lindo, abrace seu cachorro, diga ao porteiro que ele é muito gentil, diga ao padeiro que o pão dele é o melhor do universo, apareça de surpresa na casa de quem ama, se declare para o mundo... Vai, aproveita, últimas vezes acontecem todo o tempo.  Nunca se sabe o que virá pela frente, ou até mesmo quais serão os últimos passos e as últimas palavras. As minhas podem ser essas. 
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